24 de setembro de 2015

DIFICULDADES DA APLICAÇÃO DO PROGRAMA PIBID EM ESCOLAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA COM PROFESSORES DE ARTE SEM FORMAÇÃO EM MÚSICA



Universidade Católica de Santos – UNISANTOS

Profa. Me.Rita Maria Gonçalves[2]
Universidade Católica de Santos–UNISANTOS

Prof. Dr.Antonio Eduardo Santos[3]
Universidade Católica de Santos – UNISANTOS


Esta pesquisa trata da aplicação do PIBID (BRASIL,2010) de Música, nas escolas de Educação Básica, Unidades Municipais de Santos. Tem como objetivo analisar os procedimentos aplicados, alunos do programa nas escolas, verificando se as atividades realizadas melhoram a formação dos futuros profissionais e também a qualidade das aulas, e como o programa PIBID tem contribuído para aconsciência do papel da Música na Educação Básica, atuando em escolas com professores de Arte sem formação em música A pesquisa será qualitativa, conforme Lüdke e André (1986) em Penna (2002) para entender os fundamentos da música e em Abdalla (2006) para entender  a formação de professores .Aplicamos questionários  com três coordenadores , três professores de arte,e quinze estudantes, e  entrevistas para aprofundar os dados. Após análise preliminaresde alguns dados,como considerações preliminares pois a pesquisa está em andamento apontamos para soluções possíveis para a aplicação do programa.

Palavras-chaves: Educação Básica; PIBID, Formação em Música.




Introdução

Esse projeto de Iniciação Científica se vincula com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — CAPES, fundação pública, instituída com base na Lei 8.405 (BRASIL, 1992), vinculada ao Ministério da Educação sujeitando aos termos do Decreto 7.219 (BRASIL, 2010) a qual dispõe sobre o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID e dá outras providências.
Trata-se da aplicação do PIBID, na área da Música, de como tem sido realizado, quais são as dificuldades encontradas nas escolas de Educação Básica, em especial com professores de Artes sem formação em música nas Unidades Municipais de Santos.
De acordo com a implementaçãoda Lei nº 11.769/08 (BRASIL, 2008), que trata a obrigatoriedade da Música na Educação Básica, porém não há uma formação especifica de Música; no entanto, a mesma é inserida no conteúdo de Artes.
Desse modo a escola assume um grande compromisso de colocar um profissional sem a formação devidamente adequada. Então, espera-se que esta Iniciação Científica sirva como suporte para discussões fundamentais de como tem sido realizado os projetos de Música nas escolas com o trabalho em conjunto com o professor de Artes e que sirva como experiências para nossa carreira profissional.
Tem como objetivos gerais, analisar os procedimentos aplicados, pelos alunos do PIBID nas escolas analisadas, verificando se as atividades realizadas melhoram a formação dos futuros profissionais e também a qualidade das aulas, e como específicos,
conhecer, como tem sido realizado o trabalho com a Música nas escolas de Ensino Básico, com professores de arte sem formação em música; e finalmente conhecer o programa PIBID e como tem sido aplicado nas escolas, para melhorar a formação dos professores de música.
A abordagem metodológica, será por meio da pesquisa qualitativa, conforme Lüdke e André (1986), pois esta possibilita conhecer os dados, analisando por meio de seus códigos sociais, e também apoiando em Bogdan e Biklen (1994), que consideram algumas características para a pesquisa qualitativa.
Esta pesquisa fundamenta-se autores que tratam da Música em sala de aula como: JARDIM (2009); MACHADO (2004); PENNA (2002); SOBREIRA (2008); e também análise dos Parâmetros Curriculares Nacionais/PCNs (BRASIL, 1998b) em relação ao conteúdo de Artes. Foram analisados os dispositivos legais referentes à fundação da Capes (BRASIL, 1992) e sobre a disponibilidade do Programa PIBID (BRASIL, 2010) para justificar o objetivo da aplicação do programa. Ainda, contribuem para esta pesquisa outros autores que tratam da formação de professores, tais como: Abdalla (2006).
A pesquisa se desenvolverá em três etapas, conforme os seguintes procedimentos metodológicos: 1ª realizou-se um levantamento bibliográfico, por meio de pesquisas e artigos científicos; além de pesquisa nos trabalhos de, que tratam, em especial, da formação de professores em relação à Educação Musical e o PIBID e, 2° será aplicado um questionário para quinze bolsistas do Programa PIBID, em Música, e, também será realizado entrevistas com três coordenadoras responsáveis pelo PIBID nas Unidades Municipais de Santos: UME Avelino da Paz Vieira,UME Cidade de Santos e UME Azevedo Junior, com perguntas abertas e fechadas, e 3ª será feita uma entrevista com três professores de artes das unidades escolares pesquisadas e três coordenadores das escolas pesquisadas e três alunos do programa. O texto ainda estará analisando os objetivos do programa PIBID de Música eos objetivos do curso de Licenciatura em Música para fortalecer a formação dos estudantes.
Após analisar os dados e apontamos os alguns resultadospreliminares pois a pesquisa ainda esta em andamento, pois pretende apontar caminhos para buscar soluções para melhor adequação do PIBID em Música as realidades das escolas de Educação Básica.

As necessidades dos estudantes de Música frente aos desafios do PIBID

A eficácia da implementação do ensino de música dependeria, entre outros fatores, de algum tipo de aproximação, visando ampliar o conhecimento a respeito do ensino de música naqueles contextos e favorecendo a inserção da música como disciplina. Talpreparo nos remete a outro problema: o valor que é atribuído ao ensino de música na escola depende da concepção vigente a respeito das funções da música na formação do indivíduo. (SOBREIRA, 2008, p.48).


Esta citação nos remete a importância da formação adequadana Universidade, mas, também da importância da música dentro das escolas, como disciplina fundamental no desenvolvimento global dos estudantes, diante disso podemos colocar que necessidade significa querer,então, o que os nossos professores querem? O que querem mudar e/ou melhorar em suas práticas?
 O que está em jogo, então, é a (re) construção da identidade deste profissional (ABDALLA, 2006), não apenas a realização efetiva de uma tarefa. O professor precisa dominar as práticas profissionais para adquirir fundamentos para transmitir aos jovenso seu pensamento com coerência específica, pois só se confere algumalegitimidade com o saber se ele é útil.
O motivo inicial desta pesquisa se deu pelo fato dos alunos PIBID de Música sentirem a necessidade de verificar como tem sido aplicado esses projetos nas unidades escolares, em Santos, pois tem encontrado dificuldades pois os professores de Arte da Unidades pesquisas não tem formação musical, e além disso conhecer o cotidiano da escola de Educação Básica, a qual é imprescindível para a compreensão da realidade escolar. Por isso, é necessário realizar investigações a partir das indagações postas no trabalho profissional, tanto da gestão como da equipe pedagógica e os alunos do projeto PIBID.
A formação pode, também, ser entendia como um processo de desenvolvimento e de estruturação da pessoa que se realiza com o efeito de possibilidades de aprendizagem e de experiências dos sujeitos (GARCIA, 1995, p.19), por isso é de fundamental importância para podermos perceber que a formação é um processo fundamental na vida dos futuros professores (as) e da responsabilidade que as instituições formadoras têm neste processo, e a escolas de ensino básico, também pois é nelas que este profissional vai atuar.
        Conforme Penna (2002,p.11) A nova LDB – Lei n.º 9.394, de 1996 – mantém a obrigatoriedade, ao estabelecer que o “ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (art. 26, parágrafo 2º). E continua a permitir a multiplicidade, uma vez que a expressão “ensino da arte” pode ter diferentes interpretações, carecendo de uma definição mais precisa. Nesse sentido, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino fundamental – os chamados PCN –, elaborados pelo Ministério da Educação, configuram uma orientação oficial para a prática pedagógica na área de Arte (BRASIL, 1997; 1998).
O fato de os professores de arte acreditarem ser importante considerar os interesses dos alunos na elaboração de suas propostas de ensino musical,denota que tais profissionais reconhecem a importância da música, mas por não ter essa formação minimizam a sua responsabilidade, repassando para os alunos a responsabilidade de sugerir conteúdos para música, isso seria interessante como uma atividade ou para o conhecimento do nível musical da classe.
 Nesta pesquisa deparamos com escolas onde os professores que declaram abordar música em suas aulas de Arte não tem formação específica na área, certamente esse trabalho pode ser esporádico e superficial, ou até mesmo inadequado. Acreditamos, inclusive, que muitas das referências a respeito podem se limitar a algum tipo de abordagem de conteúdos apenas relacionados à música, como é o caso de atividades de interpretação de texto, com letras de canções – prática sem cunho propriamente musical.
             O PIBID é uma iniciativa para o aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores para a educação básica (BRASIL, 2015) e tem como objetivos:
·         Incentivar a formação de docentes em nível superior para a educação básica;
·         Contribuir para a valorização do magistério;
·         Elevar a qualidade da formação inicial de professores nos cursos de licenciatura, promovendo a integração entre educação superior e educação básica;
·         Inserir os licenciados no cotidiano de escolas da rede pública de educação, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação em experiências metodológicas, tecnológicas e práticas docentes de caráter inovador e interdisciplinar que busquem a superação de problemas identificados no processo de ensino-aprendizagem;
·         Incentivar escolas públicas de educação básica, mobilizando seus professores como formadores dos futuros docentes e tornando-as protagonistas nos processos de formação inicial para o magistério; e
·         Contribuir para a articulação entre teoria e prática necessárias à formação dos docentes, elevando a qualidade das ações acadêmicas nos cursos de licenciatura.
A formação do professor de música oportuniza a interação do conhecimento prévio do aluno e do conhecimento adquirido na Universidade com o foco principal nossos alunos nas unidades onde trabalham, pois a experiência adquirida nas vivências com os problemas do dia a dia servem de subsídios para a busca de uma fundamentação teórica, e com isso fica claro os objetivos do projeto de Música no PIBID como;
a)      Incentivar e valorizar experiências no que se refere à formação do musical no contexto da educação básica, contribuindo para a melhoria da qualidade da escola pública;
b)      Investir na formação de educadores musicais, proporcionando aos licenciados em música situações práticas docentes e aprimorar o aspectos no que diz respeito as metodologias do processo ensino aprendizagem;
c)      Proporcionar condições, aos futuros professores inserção ao mercado de trabalho fornecendo subsídios teóricos e práticos para melhora as suas ações na escola de educação básica.

O professor ideal é alguém que deve conhecer sua matéria, sua disciplina e seu programa, além de possuir certos conhecimentos relativos às ciências da educação e à pedagogia e desenvolver um saber prático baseado em sua experiência cotidiana com os alunos (TARDIF, 2002, p.68).

Enfim, seja buscando novas formas de atuar na escola, seja construindo propostas pedagógicas e metodológicas adequadas para esse contexto educacional, seja ainda repensando a formação do professor, é preciso aprofundar cada vez mais o compromisso com a educação básica, pois só assim a educação musical pode de fato pretender o reconhecimento de seu valor e de sua necessidade na formação de todos os cidadãos. Este é, o caminho de equilíbrio entre os objetivos do PIBID e os do Curso de Licenciatura em Música
Os estudantes, ao iniciarem sua experiência junto às escolas, não se sentem preparados para ministrar aula, ou subsidiar os professores titulares das escolas. Sua função é a aprender e vivenciar, para fortalecer seu conhecimento e adquirir prática. Segundo o coordenador do sub projeto em Musica, Prof. Dr. AntonioEduardo: “Uma das principais contribuições do PIBID para as licenciaturas é o desafio da realidade da educação pública e a busca para a transformação do quadro adverso, através de propostas voltadas para a diversidade, interação e o diálogo com outras áreas do conhecimento, buscando interfaces entre a Música e demais disciplinas. Nele pudemos observar o potencial que a linguagem musical tem em modificar o ambiente escolar e a socialização dos alunos frente aos Projetos que lhes são propostos a participar.”
Pudemos observar o potencial que a linguagem musical tem em modificar o ambiente escolar e a socialização dos alunos frente aos Projetos que lhes são propostos a participar.
 Vemos que é importante também que esses alunos futuros professores do PIBID,
Verifiquem que não serão somente professores de Música, mas que também devem dominar outros conteúdos como artes visuais, teatro e dança e nessa troca vemos também muitas defasagens de formação.
Como cita Machado (2011, p.37) “na literatura da área da educação musical, a formação dos professores de música, que se destinam a atuar no ensino básico, tem se tornado um dos assuntos mais enfatizados, uma vez que os cursos de licenciatura em música não têm contribuído, totalmente à qualificação dos docentes para enfrentarem a realidade do mercado de trabalho.
Uma das dificuldades encontradas e observadas pelos alunos bolsistas estão, de maneira geral, vinculadas a questões de gestão escolar, não interferindo de maneira substancial no desenvolvimento dos projetos propostos.
Em todas as UME’s vinculadas ao sub projeto deMúsica, houve problemas de faltas dos professores, sem aviso prévio de sua ausência, o que dificultou a rotina do aluno bolsista.
As escolas não estavam preparadas para receber as aulas de música. Tendo sido este o primeiro ano de realização deste sub projeto, as dificuldades apresentaram-se e logo superadas com a boa receptividades dos professores envolvidos, a criatividade dos alunos bolsistas e a experiência do corpo gestor das escolas.
Em contrapartida, os conflitos e imprevistos somaram à formação dos alunos-bolsistas, pois tais dificuldades mobilizaram-nos a refletir sobre novas formas de interação e elaboração de novas estratégias para a efetiva realização do projeto, bem como desvelou os percalços que compõem a dinâmica da vida escolar e sua realidade. Dessa maneira, o PIBID contribui para a formação integral dos licenciando, os quais tiveram a experiência, o ofício do professor em sua ação e também foram impelidos à pesquisa para elaboração de estratégias e resolução de problemas.

Considerações Finais
Consideramos importante esta pesquisa, no sentido de problematizar de questões presentes na realidade escolar que nos traz implicações importantes no que se refere à Música na sala de aula. E é com essa intenção que este trabalho se apresenta, buscando contribuir para conhecer e identificar as necessidades, as dificuldades, que o projeto PIBID tem apontado, a partir do estudo de caso de três escolas, e alémdisso, analisar se os objetivos do programa, tem sido alcançados, contribuindo assim para o seu objetivo do projeto que é a melhor formação dos futuros profissionais em Música.
Em relação aos alunos da educação básica, está possibilitando um processo importante de reconhecimento da universidade como parceira direta na construção dos saberes e do processo de ensino-aprendizagem, e não um templo isolado e alheio às práticas cotidianas de nossas crianças e adolescentes.
Conforme afirma o sujeito 2 de nossa pesquisa “nossa intenção não é a formação de músicos, mais sim despertar curiosidade e sonhos, trazer o conhecimento sobre as raízes de cada estilo musical e desenvolver a criatividade dos discentes”
Enfim, seja buscando novas formas de atuar na escola, seja construindo propostas pedagógicas e metodológicas adequadas para esse contexto educacional, seja ainda repensando a formação do professor, é preciso aprofundar cada vez mais o compromisso com a educação básica, e com todos os envolvidos na escola, pois só assim a educação musical pode de fato pretender o reconhecimento de seu valor e de sua necessidade na formação de todos os cidadãos.
Referências
ABDALLA, Maria de Fátima Barbosa. O senso prático de ser e estar na profissão. São Paulo: Cortez, 2006.
BRASIL. Ministério da Educação. Lei 5692/71. Brasília: MEC, 1971.
________. Ministério da Educação. Lei n. 9394/96, de 20 de dezembro de1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial daUnião, Brasília/DF, 1996.
________. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de EducaçãoFundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF,1998b.
________. Ministério da Educação.Lei n. 11.769/08, de 18 de agosto de 2008.
Altera a Lei 9394/96, de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases daEducação, para dispor sobre a obrigatoriedade de Música na educação básica.Diário Oficial da União, Poder Legislativo. Brasília, p. 1, 19 de agosto de 2008,seção I.
________. Ministério da Educação. Lei Nº 8.405, de 9 de janeiro de 1992.Disponível em:< http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8405.htm. > Acesso em: 10 jun. 2015.
_______. Ministério da Educação. Decreto n. 7219, de 24 de junho de 2010. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/decreto/d7219.htm. > Acesso em: 10 jun. 2015.
BOGDAN, R.; BIKLEN, S. - Características da investigação qualitativa. In:Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos.Porto, Porto Editora, 1994.
FRANCO, Maria Laura P. Barbosa. Análise de Conteúdo. Brasília: PlanoEditora, 2003.
GARCIA, Carlos Marcelo. Formação de Professores para uma mudança educativa. Portugal: Porto Editora, 1995.
GONÇALVES, Rita Maria. As necessidades/expectativas de formação deprofessores em Música da rede municipal de Santos. Dissertação deMestrado. Santos: Universidade Católica de Santos, 2012.
LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagemqualitativa. São Paulo: EPU, 1986.
MACHADO, Daniela Dotto. A visão dos professores de música sobre as competências docentes necessárias para a prática pedagógico-musical no ensino fundamental e médio, Artigo Revista da ABEM, número 11, setembro de 2004.
PENNA, Maura. Professores de Música nas escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio: Uma Ausência significativa. Artigo publicado pela Revista ABEM, número7, setembro 2002.
SOBREIRA, Sílvia. Reflexões sobre a obrigatoriedade da Música nas Escolas Públicas. Artigo Revista da ABEM, número 20, setembro 2008.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e Formação Profissional. 11ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002.







[1] Ana Paula Sarabando: Pedagoga e aluna do Primeiro Ano do Curso de Licenciatura em Música. Bolsista PIBID, atuando na UME Avelino da Paz Vieira. E-mail: anapaulalima113@gmail.com
[2] Profa. Me.Rita Maria Gonçalves. Pedagoga licenciada em Educação Artística, Bacharel em Música, Pós-graduada em Direito Educacional, Gestão Educacional, Gestão Escolar, Didática para o Ensino Superior, Mestre em Educação pela Universidade Católica de Santos/UNISANTOS. Professora do Curso de Licenciatura em Música da UNISANTOS e Diretora de Escola Particular, Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa do PARFOR/ NPP, do Grupo de Pesquisa “Instituições de Ensino: Políticas e Práticas Pedagógicas” CNPq e do Projeto OBEDUC/Capes. E-mail: ritagoncalves02@hotmail.com
[3]Prof. Dr.Antonio Eduardo: Coordenador do Curso de Licenciatura em Musica e do Sub Projeto em Musica do PIBID. Mestre em Artes pela Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho e Doutor de Comunicação e Semiótica pela Pontifícia  Universidade Católica de São Paulo. E-mail: antonio.eduardo@unisantos.br

ANA PAULA SARABANDO

Pedagoga e aluna do Primeiro Ano do Curso de Licenciatura em Música. Bolsista

PIBID, atuando na UME Avelino da Paz Vieira.


ARTIGOS 

DIFICULDADES DA APLICAÇÃO DO PROGRAMA PIBID EM ESCOLAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA COM PROFESSORES DE ARTE SEM FORMAÇÃO EM MÚSICA


22 de setembro de 2015

PSICOPEDAGOGIA E TÉCNICA VOCAL


MoacirTadeu de Oliveira Júnior


Resumo

Esta pesquisa reflete sobre em que medida os fatores emocionais podem interferir no aprendizado de canto e como a psicopedagogia pode intervir diante deste quadro, compreendendo o ser humano como um todo, onde a evolução deste aluno nem sempre está ligada a questões técnicas, mas também a questões neurológicas e psicológicas. Ao abordar uma breve introdução à Psicologia Emocional e à Neurociência, nas quais o corpo responde aos estados do indivíduo, este trabalho pretende trazer ao conhecimento a importante ligação entre estes impulsos e a voz. Trata-se de uma revisão bibliográfica que tem como eixo central a pesquisa sobre psicopedagogia musical de Violeta Gainza, associando os fatores psicológicos - emocional, estresse e ansiedade - ao desenvolvimento técnico vocal do indivíduo. O encerramento deste trabalho se faz com relato de casos reais que corroboram com as questões apresentadas. A partir desta pesquisa conclui-se a importância de um olhar diferenciado para cada aluno como um ser que reflete aspectos emocionais através da voz, e, que um trabalho em conjunto entre o preparador vocal e o psicopedagogo pode potencializar ou trazer à normalidade, o desenvolvimento técnico vocal deste indivíduo.


Palavras-chave: Técnica Vocal. Neurociência. Psicopedagogia. Emoção. Estresse. Ansiedade.


Introdução

Sabe-se que a música faz parte de todas as comunidades como forma de manifestação cultural ou religiosa e expressa ideias e sentimentos de alegria ou tristeza, e que o canto, além de mais que um meio de expressão do ser humano, é um instrumento musical “biológico”, ou seja, todos os que possuem voz estão sujeitos a fatores ambientais e psicológicos e podem cantar bem, desde que seja feito um trabalho de desenvolvimento técnico vocal específico voltado para as dificuldades do indivíduo. Porém, independente do nível técnico que o sujeito apresente, sua voz irá refletir e/ou sofrer com aspectos emocionais, que, geralmente, não são levados em consideração no momento do ensino da técnica vocal.
Pela experiência de alguns professores de canto, nota-se que alguns alunos apresentam um tímido desenvolvimento se comparado a outros, sendo que tecnicamente apresentam os recursos necessários, porém, na execução, não conseguem se expressar. Este artigo busca pesquisar sobre o processo de ensino-aprendizagem das técnicas de canto, no qual, a partir das teorias do desenvolvimento cognitivo, das descobertas científicas da Neurociência sobre emoções, ansiedade e estresse e, sobre a pesquisa psicopedagógica musical, pode ser realizado um trabalho em conjunto entre um psicopedagogo e o professor de técnica vocal voltado para aquele aluno visto como difícil ou sem talento para a música, que, por um motivo ou razão não técnica, apresente falta de habilidade na área do canto.
Dessa maneira, é de grande importância o conhecimento estrutural de formação da voz para que haja um trabalho específico para suprir as deficiências apresentadas devido aos aspectos psiconeurológicos envolvidos. Portanto, além da pesquisa acerca das emoções, ansiedade e estresse, este trabalho apresenta em que medida esses fatores podem interferir no aprendizado do canto e como a Psicopedagogia pode intervir diante deste quadro.
Em seguida, serão relatados alguns casos de alunos vistos como “difíceis” que preparadores vocais encontram com freqüência e uma breve associação com os fatores psicológicos apresentados.

1 Conceitos iniciais

Para Schoenberg[2] (1965), a música funciona como um diálogo onde a clareza de ideias é de extrema importância para que haja uma boa conversa.

Sem organização, a música seria uma massa amorfa, tão inteligível quanto um ensaio sem pontuação, ou tão desconexo quanto um diálogo que saltasse despropositadamente de um argumento a outro.
Os requisitos essenciais para a criação de uma forma compreensível são a lógica e a coerência: a apresentação, o desenvolvimento e a interconexão das ideias devem estar baseados nas relações internas, e as ideias devem ser diferenciadas de acordo com sua importância e função (SCHOENBERG, 1965, p. 28).

Partindo deste pressuposto, a música pode ser entendida como um jogo de regras composto por momentos de tensão e relaxamento capaz de expressar emoções e ideias. Portanto, a música é mais uma forma de expressão do ser humano.
Para o aprendizado do canto, que é uma das formas de expressão musical, é importante que o aluno amplie algumas sensibilidades para que seja realizado um trabalho de autoconhecimento corporal, no qual as sensações são o referencial do que é certo ou errado quando se põe em prática técnicas que estão sendo desenvolvidas.
Segundo Bicudo (2005), o mecanismo de produção da voz é composto pelas cordas vocais (que se encontram na laringe), pulmões, sistema de ressonância (boca, nariz e faringe) e órgãos fonoarticulatórios (lábios, dentes, língua, palato duro e palato mole). Desta maneira, o corpo humano não disponibiliza de um órgão exclusivo para a produção da voz.
Assim como qualquer outro instrumento, para se cantar bem - tendo em vista que cantar bem envolve técnica - é necessário um pleno conhecimento do instrumento para que o domínio do mesmo possa responder ao intento da música. Pleno conhecimento do instrumento voz envolve conhecimento do corpo e de fatores que podem alterar o bom funcionamento do mesmo. Vou dividir esses fatores em três partes: físico, ambiente e psicológico[3].

1.1 Fator Físico

O ar que vem dos pulmões no processo de expiração passa pelas cordas vocais fazendo com que elas vibrem em maior ou menor intensidade (som agudo ou grave). Sendo assim, podemos entender a voz como um processo mecânico que pode vir a apresentar algum problema na sua formação estrutural. Caso isso ocorra, Bicudo (2005) propõe em sua pesquisa que:

Quando um paciente apresenta disfonia, o principal objetivo é modificar a produção vocal por meio de novos ajustes musculares visando uma emissão com o mínimo de esforço e o máximo de eficiência [...] Ao se trabalhar voz e motricidade oral, o objetivo da terapia é, muitas vezes, compensar as alterações e otimizar a produção da fala, além de ajudar o paciente a compreender que tipo de problema tem, auxiliando-o a encontrar as soluções mais pertinentes para o seu caso. Se as causas forem estruturais ou mesmo funcionais, o terapeuta atua no sentido de melhorar o que está impedindo ou dificultando a articulação de fonemas (p. 117).

Portanto, quando falamos de fator físico, falamos de problemas passíveis de acompanhamento médico ou de uma terapia para a reeducação do controle dos mecanismos da fala.

1.2 Fator ambiente

Nosso corpo é matéria e como todo corpo material, reagimos às condições ambientais. Umidade relativa do ar[4] e temperatura estão entre os fatores que podem alterar o rendimento de um cantor.

[...] não apenas os motivos pessoais, físicos e psíquicos incidem na percepção musical, como qualquer outro tipo de percepção (quando estamos mal nos sentimos desligados, embora tenhamos as maiores aptidões e o melhor ouvido do mundo), mas também os motivos externos, como por exemplo a temperatura, a pressão ou a umidade ambiente. ([...] existe um fator ambiental que incide negativamente, fazendo baixar o rendimento geral.) (GAINZA, 1988, p. 46).

1.3 Fator psicológico

Este fator apresenta toda uma complexidade do assunto que envolve cérebro, cognição, afetividade e emoção em prol do canto.
Para Gainza (1988): "Toda conduta envolve uma MUDANÇA" (p. 21). Partindo desta afirmativa podemos dizer que toda dificuldade é acompanhada de algum problema passível de solução, seja ela um fator físico, ambiental, psicológico ou técnico. Howard (1984) também corrobora para essa questão quando afirma que “[...] o homem não pode exteriorizar mais do que leva dentro de si” (p. 36).
Partindo destas duas afirmativas, podemos refletir sobre o significado das palavras “dom” e “capacidade”. De acordo com o dicionário Michaelis on line[5] (2015, s. p.) “dom” significa “habilidade especial para”, e “capacidade”, a possibilidade de fazer ou produzir qualquer coisa”. Nota-se que em nenhuma das palavras diz ser algo exclusivo, e sim, que dom pode ser entendido como uma facilidade em aprender; enquanto capacidade, todos têm, desde que não haja uma impossibilidade física na questão do cantar.
Tendo como referência o real significado das palavras acima definidas, se buscam respostas que ultrapassam os limites da técnica, quando todo o repertório a ser ensinado não é o suficiente para que o aluno alcance um resultado satisfatório dentro do cantar, na qual através da visão do ser humano como um todo pode ser a chave para um resultado musical esperado.
Segundo Bicudo (2005): "A voz, as emoções, a respiração e o corpo estão intimamente ligados, portanto, mexer com a voz é mexer com o corpo todo [...]" (p. 51).
Há um contínuo movimento que envolve ajuste e equilíbrio do ser humano, capaz de influenciar o resultado do processo de desenvolvimento musical deste. Este movimento de ajuste e equilíbrio pode também ser compreendido através de uma óptica piagetiana que fala sobre o conhecimento lógico-matemático (conservação do número), onde o conhecimento é o desenvolvimento da ação do indivíduo sobre o objeto[6]. Assim, o canto é resultado da relação entre o sujeito e o objeto (música).
“Significado e compreensão são construídos através de ações sobre objetos e de experiências com as coisas a serem conhecidas” (WADSWORTH, 1973, p. XV).
Da mesma maneira que o indivíduo age e reage sobre o objeto, este exerce influência e pressão sobre o sujeito, nos levando a pensar sociologicamente que o indivíduo além de ser resultado da sua interação com o meio, envia suas percepções para este meio que o influencia a todo instante. Assim sendo, esta interação é dinâmica e ativa. Portanto, devemos atentar para o fato de que um cantor profissional sofre diferentes influências em relação ao amador, pois, segundo Gainza (1988):

Músico profissional é, na minha opinião, a pessoa que mantém uma relação madura, objetiva com a disciplina ou atividade que cultiva; que a vê como algo claramente diferenciado dele mesmo, podendo – como no caso da arte ou do artista -  chegar a introjetar nela partes ou aspectos de si mesmo – de maneira voluntária ou não -, mas sem alterar ou perder de vista sua própria essência, nem a do objeto. Em outras palavras, sem que se produza uma simbiose (p. 55).

Desta forma, pode-se entender que há uma relação diferenciada entre amador-música e profissional-música, podendo ou não ser caracterizada por produzir ou não uma relação simbiótica. Ou seja, não há uma fronteira que separa o sujeito do objeto, e, por não ter uma fronteira definida, a ação do sujeito sobre o objeto fica prejudicada. De acordo com a hipótese de Gainza (1988), “[...] um sujeito tem problemas com a música quando não consegue tomar distância por causa de uma relação simbiótica com ela” (p. 65). 
Em outra situação, é que sendo a música um meio de expressão e toda expressão ser projetiva, Gainza (1988) afirma que a música reflete aspectos da personalidade e Bicudo (2005) vai mais além, quando diz que “[...] a voz reflete imagens psicológicas em sons” (p. 47).
Se a imagem psicológica pode ser concretizada através do som, podemos concluir que uma pessoa que apresenta algum desequilíbrio psicológico ou emocional pode vir a concretizar o seu som de forma desequilibrada, pelo fato do corpo estar totalmente interligado. Por exemplo, uma pessoa que se encontra em um momento de tensão, ou seja, os hormônios adrenalina e cortizol e o químico cerebral dopamina se encontram em um nível acima do aceitável para se garantir um bom desempenho em qualquer atividade, este indivíduo apresenta comprometidas as capacidades de escutar, de aprender ou de atenção, assim, podendo possivelmente estar associado a algum quadro de dificuldade de execução técnica vocal (KHALSA, 1997). Isso acontece porque, segundo Magalhães e Camargo (2009):

O cérebro é a base material do nosso mundo mental, de nossa alma - é nele que se formam os sentimentos, a visão de mundo de cada um, os estados de espírito das pessoas e tudo o que elas percebem de forma subjetiva. Aquilo que acontece na alma tem um correspondente biológico no cérebro, e muitos dos processos químicos que ocorrem no cérebro têm um parâmetro na alma. Esse órgão tão complexo, composto por cerca de 86 bilhões de neurônios, está envolvido tanto nas nossas emoções, pensamentos e comportamentos ditos 'normais', quanto nas perturbações deles. 'Qualquer distúrbio emocional, mesmo que não seja tratado por meio de remédios, consiste necessariamente num 'desequilíbrio bioquímico do cérebro'. Biologia e psicologia, cérebro e psiquismo são apenas duas faces da mesma moeda', diz Yovell (p. 20 - 21).

A partir desta visão, a integração de instrumentos psicopedagógicos para um melhor aproveitamento de um aluno no aprendizado do canto se torna fundamental, compreender que a voz é o reflexo do seu “eu interior”, que responde a situações, momentos e fatores psicológicos, emocionais e neurológicos se torna tão importante quanto os conhecimentos técnicos a serem ensinados.

1.3.1 Emoção

Segundo Goleman (1995), a palavra emoção vem do latim movere mais prefixo e - que significa afastar-se. Portanto, quando falamos de emoções, estamos falando de inclinações para um fazer súbito. Existem várias definições para emoção e todas estão ligadas ao sentimento e ao agir, influenciado por um estado psíquico ou biológico.
O corpo manifesta uma reação para cada tipo de emoção que desempenha uma função específica. De acordo com Goleman (1995, p. 20 - 21):

·               Na raiva, o sangue flui para as mãos, [...] os batimentos cardíacos aceleram-se e uma onda de hormônios, a adrenalina, entre outros, gera uma pulsação, energia suficientemente forte para uma atuação vigorosa.
·               No medo, o sangue corre para os músculos do esqueleto, [...] o rosto fica lívido, já que o sangue lhe é subtraído (daí dizer-se que alguém ficou “gélido”). Ao mesmo tempo, o corpo imobiliza-se, ainda que por um breve momento, talvez para permitir que a pessoa considere a possibilidade de, em vez de agir, fugir e se esconder. Circuitos existentes nos centros emocionais do cérebro disparam a torrente de hormônios que põe o corpo em alerta geral, tornando-o inquieto e pronto para agir. A atenção se fixa na ameaça imediata, para melhor calcular a resposta a ser dada.
·               A sensação de felicidade causa uma das principais alterações biológicas. A atividade do centro cerebral é incrementada, o que inibe sentimentos negativos e favorece o aumento da energia existente, silenciando aqueles que geram pensamentos de preocupação. Mas não ocorre nenhuma mudança particular na fisiologia, a não ser uma tranqüilidade, que faz com que o corpo se recupere rapidamente do estímulo causado por emoções perturbadoras. Essa configuração dá ao corpo um total relaxamento, assim como disposição e entusiasmo para a execução de qualquer tarefa que surja e para seguir em direção a uma grande variedade de metas.

·               O Amor, os sentimentos de afeição e a satisfação sexual implicam estimulação parassimpática, o que se constitui no oposto fisiológico que mobiliza para ‘lutar-ou-fugir’ que ocorre quando o sentimento é de medo ou ira. O padrão parassimpático, chamado de 'resposta de relaxamento', é um conjunto de reações que percorre todo o corpo, provocando um estado geral de calma e satisfação, facilitando a cooperatividade.

1.3.2 Estresse

De acordo com Khalsa (1997): “O estresse é a sensação que pode resultar de um fator estressante” (p. 280). Fator estressante é uma tensão causada por uma ação ou um evento que atua sobre o sujeito como uma força exterior. O estresse pode ser bom ou ruim, ele é bom quando os hormônios adrenalina e cortizol juntos ao químico cerebral dopamina são acionados pelo cérebro e atingem um nível ideal que nos faz entrar em uma região de motivação, entusiasmo e bom desempenho para se realizar um trabalho com eficácia, e, ele é ruim quando esse nível ideal é ultrapassado, fazendo com que a função neuroendócrina fique fora de forma e com que haja uma desestabilidade nos sistemas nervoso e imunológico (GOLEMAN, 2012).
Para Goleman (2012), o cérebro atua auxiliando ou prejudicando o desempenho do indivíduo em qualquer campo da habilidade através do "[...] impacto do eixo HPA[7], o circuito que secreta hormônios do estresse quando a amígdala é acionada" (p. 61).
Para esta pesquisa, iremos abordar três estados de estresse representados na lei de Yerkes-Dodson[8]: ócio, esgotamento e fluxo.
Segundo Goleman (2012), no ócio o indivíduo se apresenta entediado, desinteressado e sem inspiração. Geralmente apresenta pouca ou nenhuma motivação para dar o seu melhor na realização de uma determinada atividade, e isso acontece por não haver uma quantidade suficiente de hormônios de estresse. No esgotamento, o sujeito apresenta dificuldade na clareza de pensamentos e desequilíbrios no relógio biológico, na função neuroendócrina, sistema imunológico e nervoso, devido ao demasiado nível de hormônio de estresse que prejudica a capacidade de desenvolver bem alguma atividade. E no fluxo, chamado de estado de harmonia neural, o indivíduo além de sentir alegria ao executar a atividade em questão, ele apresenta um elevado nível de concentração e rapidez na resposta aos desafios variantes em que se encontra, devido às diferentes áreas do cérebro estar trabalhando em conjunto. Neste estado, qualquer talento que o sujeito tenha pode ser utilizado no nível máximo.

1.3.3 Ansiedade

Segundo Magalhães e Camargo (2012), a ansiedade é uma das emoções mais úteis ao homem, pois, se não houvesse a ansiedade ele não se prepararia para enfrentar os momentos difíceis. Portanto, a “ansiedade é positiva quando experimentada em níveis moderados e atrelada a ameaças reais” (p. 67). Sendo assim, podemos entender a ansiedade (moderada) como uma das emoções responsáveis por tornar o homem mais eficiente e precavido.
Porém, quando a ansiedade é provada em níveis exagerados, há o comprometimento do bem estar do indivíduo fazendo com ele que apresente um quadro de ansiedade patológica, no qual, pode desenvolver dores de barriga, insônia e falta de apetite, por exemplo.
Os transtornos mentais do grupo da ansiedade são variados, iremos abordar apenas a fobia social e a ansiedade generalizada por serem de relevante importância para esta pesquisa por apresentarem sintomas que podem prejudicar o desenvolvimento técnico vocal do indivíduo.

[...] na fobia social, a fonte de ansiedade é o julgamento alheio, por isso, a pessoa fica muito nervosa se tiver que falar em público, comer acompanhada ou escrever diante de alguém. É algo que vai muito além de uma simples timidez. A pessoa não fica apenas corada e sem jeito se tem que passar por situações – fica tão nervosa que não dá conta de realizar essas tarefas [...] Na ansiedade generalizada, como o próprio nome sugere, tudo é fonte de preocupação desmedida. A pessoa simplesmente não consegue relaxar, está cronicamente tensa, ruminando dúvidas e tomando providências para evitar imprevistos e se sentir mais segura (MAGALHÃES E CAMARGO, 2012, p.79).

Pode-se concluir que a ansiedade pode ser positiva ou negativa para a realização de qualquer atividade. Para Goleman (2012), a ansiedade pode prejudicar a eficiência cognitiva do indivíduo.  
Diante dos aspectos psicológicos que podem interferir no desenvolvimento da técnica vocal do indivíduo, podemos afirmar que, após um trabalho realizado em conjunto entre o pedagogo musical e o psicopedagogo, é possível diagnosticar, ou seja, identificar o problema que causa a dificuldade do sujeito (técnico ou psicológico), e, a intervenção tende a auxiliar no aprendizado, modificando este quadro que geralmente causa a visão distorcida: a “falta de dom”.
Para Gainza (1988):

Por isso, a única solução que vislumbramos por ora consiste em fazer com que o pedagogo e o psicólogo intervenham conjuntamente, e de maneira ativa, para corrigir e modificar esses tipos de situações confusas tão freqüentes dentro do meio musical (p.62).

É de extrema importância reforçar o fato de que nem todo problema ou dificuldade é de caráter psiconeurológico, podendo ser também alguma limitação física ou deficiência técnica.


2 RELATO DE CASO

       Todos os casos relatados são reais e estão representados por nomes fictícios por questões éticas.

2.1 Caso 1

Maria, 25 anos, estuda técnica vocal há aproximadamente um ano e seis meses por indicação médica, após o diagnóstico de Miestenia Gravis, enfermidade neuromuscular, caracterizada por um rápido estado de fadiga, após algum esforço físico ou pela fraqueza muscular. No caso de Maria, a musculatura que apresenta problemas é a da face, dificultando a articulação e o conforto na fala.
Porém, a dificuldade encontrada no aprendizado do canto é potencializada pelo pós-operatório em virtude da enfermidade. Após a cirurgia realizada, devido às complicações da doença, Maria ficou abalada psicologicamente por seu rosto ter sofrido alterações na formação, mas nada que comprometa a sua aparência física. Todavia, após 25 anos, ver seu rosto com outra aparência lhe causava incômodo, e a falta de sensibilidade em perceber isso dos que estavam ao seu redor, fez com que ela se fechasse e não mais falasse a respeito sobre esse sentimento e, por consequência, sobre outros assuntos emocionais que a incomodavam.
Após um ano e seis meses de técnica vocal, o desenvolvimento de Maria nos exercícios foi aceitável, tendo em vista que o contato com a música se deu por prescrição médica, para ajudá-la no controle dos músculos faciais, melhorando sua articulação. Porém, a dificuldade para cantar uma música não correspondia ao desenvolvimento apresentado durante os exercícios, já que a música é uma expressão do ser humano, onde ele apresenta ao mundo, o seu ser interior. Para Gainza (1988): “Expressar-se é, pois, demonstrar tanto as deficiências como as capacidades” (p.31). E, Maria, ao se retrair, sem falar sobre esses sentimentos que lhe causavam desconforto e por pensar que o que ela sentia não era importante, também apresentou essa dificuldade no momento do canto, pelos mesmos motivos. De acordo com Bicudo (2005) a expressão vocal é afetada, quando há o bloqueio de qualquer sentimento.
Neste caso, podemos refletir sobre a música como uma das formas de expressão do ser humano, onde a emoção interfere de forma ativa e constante, fazendo com que os sons sejam o reflexo das imagens psicológicas através da voz. A psicoterapia seria a intervenção mais adequada nesta situação.

2.2 Caso 2

Júlia, 28 anos, toca flauta doce com facilidade e faz aula de canto há aproximadamente dois anos. Quando iniciou as aulas de canto, apresentava voz “infantilizada”, problema superado tecnicamente com exercícios que a ajudaram no desenvolvimento da articulação, contribuindo para aumentar sua consciência da formação das vogais. Júlia também apresenta dificuldade na questão rítmica, a qual foi amenizada com exercícios de percepção rítmica. Ela tem uma boa evolução nas aulas, com bom controle da respiração, afinação aceitável e consegue ter uma boa desenvoltura durante os vocalizes, porém, quando precisa cantar em público ou nas aulas realizadas em grupo, Júlia não consegue ter o mesmo desempenho. Ao ser questionada sobre a dificuldade apresentada, demonstrou insegurança diante do seu conhecimento técnico vocal e receio de colocar em prática o que sabe perante outras pessoas, por medo de errar ou ilações sobre que iriam pensar dela.
Para Magalhães e Camargo (2012):

[...] na fobia social, a fonte de ansiedade é o julgamento alheio, por isso, a pessoa fica muito nervosa se tiver que falar em público, comer acompanhada ou escrever diante de alguém. É algo que vai muito além de uma simples timidez. A pessoa não fica apenas corada e sem jeito se tem que passar por situações – fica tão nervosa que não dá conta de realizar essas tarefas. Foge delas como o diabo foge da cruz (p.79).

Júlia apresenta sintomas de fobia social, na qual a válvula de escape é o julgamento alheio, sendo este o motivo de ficar nervosa a ponto de não conseguir colocar em prática o que sabe sobre técnica vocal. Não é uma simples timidez, é um nervosismo que faz com que ela não consiga desenvolver o que sabe em público. Neste caso, o acompanhamento psicológico para superar esta dificuldade é a intervenção indicada.

2.3 Caso 3

            Mateus, 37 anos, sete meses de aula de técnica vocal. Desde o início sempre apresentou muita facilidade na execução dos exercícios e boa afinação. Apesar de não conseguir manter o mesmo nível de concentração em todas as aulas, sempre manteve uma evolução técnica, acima da média. Porém, em algumas aulas, se mostrou muito agitado e com baixa concentração, o que prejudicou a sua evolução musical. No início, geralmente aparentava estar tenso, principalmente na região do pescoço, o que prejudicava seu desempenho em notas agudas. Em várias conversas foi relatado sobre o dia difícil que enfrentara antes de estar ali. Mateus trabalhava na área da saúde, em uma instituição que estava passando por problemas administrativos e financeiros.
De acordo com Khalsa (1997): “A mente é o “software”, o produto místico ou misterioso de tudo o que somos. O cérebro é o “hardware”, um órgão físico que requer nutrição, descanso, uso e cuidados médicos apropriados” (p.21).
Após um dia de trabalho desgastante é natural que o sujeito se encontre, pela escala de Yerkes-Dodson, no estado de esgotamento, que é quando os hormônios do estresse estão elevados.
Para Khalsa (1997), o cortizol retira do cérebro a glicose, que é a única fonte de estímulo.

Ele também destrói os mensageiros químicos do cérebro – seus neurotransmissores – que conduzem seus pensamentos de uma célula para outra. Quando a função dos neurotransmissores é interrompida, ou quando o suprimento de combustível para o cérebro cai, você encontra dificuldade para se concentrar ou recordar alguma coisa (KHALSA, 1997, p.21).

Mateus, ao se encontrar no estado de esgotamento (software), faz com que seu corpo (hardware) não responda da maneira esperada.
Este caso é muito comum, pois o causador do estresse pode ser um dia ruim ou uma situação que esteja sendo vivenciada pelo sujeito na sua casa, trabalho ou relacionamento.
A intervenção pode se dar através de exercícios de relaxamento – geralmente realizados no início das aulas – ou, pode ser através da meditação feita de forma regular ou, ainda, através de acompanhamento psicológico adequado. A intenção é fazer com que o sujeito atinja o estado de fluxo, que é o nível bom de estresse para um ótimo desempenho. Para Goleman (2012): “Uma estratégia geral para intensificar a probabilidade de fluxo é praticar regularmente métodos que realcem a concentração e o relaxem fisiologicamente” (p.72). O relaxar fisiologicamente é de extrema importância no canto, pois a “rigidez da nuca é também a rigidez do corpo e de suas expressões” (BICUDO, 2005, p. 67).
Em todos os casos citados vemos a importância de um olhar para o indivíduo como um todo. A voz não é apenas som, ela é um estado emocional, psicológico e neurológico. Para Bicudo (2005):

A voz está no meio do caminho entre a cabeça e o coração. Nela se encontra o que pensamos e o que sentimos. As emoções deságuam na voz através de pelo menos dois mecanismos: 80% dos nervos que atuam sobre a musculatura da laringe passam pela região do hipotálamo, parte do cérebro responsável pelas emoções, e o estado emocional afeta a respiração, que fornece o ar para a produção da voz, afetando o nosso corpo. A voz, as emoções, a respiração e o corpo estão intimamente ligados, portanto, mexer com a voz é mexer com o corpo todo, é rever nossas atitudes frente ao mundo (p.51).


Considerações finais

A Psicopedagogia pode ser uma excelente ferramenta de aprendizagem da técnica vocal, no qual, através da visão do indivíduo como um todo pode ser a resposta para a dificuldade que ele encontra para melhor desenvolver sua capacidade musical. As questões ligadas à emoção, estresse e ansiedade são alguns dos aspectos que foram abordados neste artigo que são de grande importância para o bem estar do aluno.
Quando um indivíduo consegue manter uma boa relação com a música, é sinal de que ele está de bem consigo mesmo, ou, ela (a relação) pode estar sendo uma maneira, talvez a única, que ele tenha para mostrar o seu verdadeiro “Eu” para o mundo.
Por meio deste trabalho, pude confrontar e compreender melhor uma afirmação de Howard (1984): “[...] é o ser dotado no plano artístico que geralmente coloca os problemas mais contraditórios para serem resolvidos” (p. 13). No início desta pesquisa, eu esperava encontrar algumas informações que ajudassem a compreender e, ou, padronizar as dificuldades musicais encontradas pelos estudantes da técnica vocal, porém, no decorrer deste trabalho, me deparei com um leque de informações onde a compreensão da voz é o resultado do ser humano em toda a sua complexidade física, emocional, psíquica e técnica.
Há muito mais o que ser pesquisado e observado, porém, este artigo pode proporcionar uma visão inicial deste assunto complexo que é o desenvolvimento técnico vocal a partir da Neurociência, Psicologia e Psicopedagogia.
Todos os indivíduos que se apresentam como “sem dom” ou “sem talento” podem vir a cantar, através de um trabalho em conjunto, do preparador vocal e da observação do psicopedagogo.  Com amplo conhecimento de técnicas para ensino do canto, é possível diagnosticar como deficiência técnica ou não, sendo possível realizar um planejamento, traçando metas e definindo os objetivos para o desenvolvimento vocal do aluno.




Referências


BICUDO, Maria Lúcia. A importância do som, da palavra e da voz na harmonização do ser. 1.ed. São Paulo: Altana, 2005. ISBN 8587770322. 


GAINZA, Violeta Hemsy de. Estudos de psicopedagogia musical. [tradução de Beatriz A. Cannabrava]. 3.ed. São Paulo: Summus, 1988. ISBN 9788532303189.


GIMENES, Beatriz Piccolo. O jogo de regras nos jogos da vida: sua função psicopedagógica na sociabilidade e na afetividade de pré-adolescentes. São Paulo: Vetor, 2000. ISBN 8587516124.


GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional. [tradução de Marcos Santarrita]. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.


_________________. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas [tradução Carlos Leite da Silva]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. ISBN 9788539003983.


HOWARD, Walter. A música e a criança. [tradução de Norberto Abreu e Silva Neto]. São Paulo: Summus, 1984. ISBN 9788532301994.


KHALSA, Dharma Singh. Longevidade do Cérebro. [tradução de Sylvia Bello]. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997, p. 279 - 305.


MAGALHÃES, Naiara; CAMARGO, José Alberto de. Não é coisa da sua cabeça. Belo Horizonte: Gutemberg, 2012, p. 9 - 101. ISBN 9788565383776.


NUNES-SILVA, Marília et al. A música para indução de relaxamento na Terapia de Integração Pessoal pela Abordagem Direta do Inconsciente: ADI/TIP. Contextos Clínic [online]. 2012, v. 5, n. 2 [citado 2015-03-31], pp. 88-99. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-34822012000200004&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 19833482. http://dx.doi.org/10.4013/ctc.2012.52.03. Acesso em 31 Mar. 15.


SCHOENBERG, Arnold. Fundamentos da composição musical. [tradução de SEINCMAN, Eduardo]. 3.ed. São Paulo: EdUSP, 2008. ISBN 10: 8531400457. ISBN 13: 9788531400452.


WADSWORTH, Barry J. Piaget para o professor da pré-escola e 1ºgrau. [tradução de Marilia Zanella Sanvicente]. São Paulo: Pioneira, 1973.


[1] Licenciado em Música - Graduado em Licenciatura em Música - Universidade Católica de Santos. Formado em técnica vocal na EMT - Escola de Música e Tecnologia. E-mail: contato@tatooliveira.com.br.
[2] Arnold Franz Walter Schoenberg (1874 – 1951) compositor austríaco, criador do dodecafonismo (que é uma forma de composição musical), pintor e autor de tratados relacionados à teoria musical.
[3] Sempre ao citar fator psicológico estarei me referindo aos fatores estresse, emocional e ansiedade.
[4] De acordo com a NBR-17 (denominação de norma da ABNT), que é uma norma regulamentadora voltada para o trabalho, os parâmetros estabelecidos de temperatura são entre 20ºC – 23ºC e umidade relativa do ar não inferior a 40% visam uma adaptação das condições do trabalho às características psicofisiológicas do trabalhador.
[5] Disponível em http://michaelis.uol.com.br. Acesso em 29 Mar. 2015.
[6] Entende-se como objeto, todo material concreto que pode ser manipulado. Segundo Wadsmorth (1973) a ação do sujeito sobre o objeto constrói o conhecimento lógico-matemático que é um dos três tipos de conhecimento piagetiano.
[7] Eixo hipotálamo-pituitária-adrenal.
[8] A relação entre estresse e desempenho, captada na lei de Yerkes-Dodson, mostra que o tédio e a ociosidade disparam muito pouco dos hormônios de estresse secretados pelo eixo HPA – e o desempenho fica para trás. Conforme ficamos mais motivados e empenhados, o “bom estresse” leva-nos à zona ótima, na qual temos o melhor nível de desempenho. Se os desafios ficarem grandes demais e ficarmos esgotados, entramos na zona de exaustão, onde os níveis de hormônios de estresse ficam altos demais e dificultam o desempenho (GOLEMAN, 2012, p. 62).