MoacirTadeu de Oliveira Júnior
Resumo
Esta
pesquisa reflete sobre em que medida os fatores emocionais podem interferir no
aprendizado de canto e como a psicopedagogia pode intervir diante deste quadro,
compreendendo o ser humano como um todo, onde a evolução deste aluno nem sempre
está ligada a questões técnicas, mas também a questões neurológicas e
psicológicas. Ao abordar uma breve introdução à Psicologia Emocional e à Neurociência,
nas quais o corpo responde aos estados do indivíduo, este trabalho pretende
trazer ao conhecimento a importante ligação entre estes impulsos e a voz.
Trata-se de uma revisão bibliográfica que tem como eixo central a pesquisa
sobre psicopedagogia musical de Violeta Gainza, associando os fatores
psicológicos - emocional, estresse e ansiedade - ao desenvolvimento técnico
vocal do indivíduo. O encerramento deste trabalho se faz com relato de casos reais
que corroboram com as questões apresentadas. A partir desta pesquisa conclui-se
a importância de um olhar diferenciado para cada aluno como um ser que reflete
aspectos emocionais através da voz, e, que um trabalho em conjunto entre o preparador
vocal e o psicopedagogo pode potencializar ou trazer à normalidade, o
desenvolvimento técnico vocal deste indivíduo.
Palavras-chave: Técnica Vocal. Neurociência. Psicopedagogia.
Emoção. Estresse. Ansiedade.
Introdução
Sabe-se
que a música faz parte de todas as comunidades como forma de manifestação
cultural ou religiosa e expressa ideias e sentimentos de alegria ou tristeza, e
que o canto, além de mais que um meio de expressão do ser humano, é um
instrumento musical “biológico”, ou seja, todos os que possuem voz estão
sujeitos a fatores ambientais e psicológicos e podem cantar bem, desde que seja
feito um trabalho de desenvolvimento técnico vocal específico voltado para as
dificuldades do indivíduo. Porém, independente do nível técnico que o sujeito
apresente, sua voz irá refletir e/ou sofrer com aspectos emocionais, que,
geralmente, não são levados em consideração no momento do ensino da técnica
vocal.
Pela
experiência de alguns professores de canto, nota-se que alguns alunos
apresentam um tímido desenvolvimento se comparado a outros, sendo que
tecnicamente apresentam os recursos necessários, porém, na execução, não
conseguem se expressar. Este artigo busca pesquisar sobre o processo de
ensino-aprendizagem das técnicas de canto, no qual, a partir das teorias do
desenvolvimento cognitivo, das descobertas científicas da Neurociência sobre
emoções, ansiedade e estresse e, sobre a pesquisa psicopedagógica musical, pode
ser realizado um trabalho em conjunto entre um psicopedagogo e o professor de
técnica vocal voltado para aquele aluno visto como difícil ou sem talento para
a música, que, por um motivo ou razão não técnica, apresente falta de habilidade
na área do canto.
Dessa
maneira, é de grande importância o conhecimento estrutural de formação da voz
para que haja um trabalho específico para suprir as deficiências apresentadas
devido aos aspectos psiconeurológicos envolvidos. Portanto, além da pesquisa
acerca das emoções, ansiedade e estresse, este trabalho apresenta em que medida
esses fatores podem interferir no aprendizado do canto e como a Psicopedagogia
pode intervir diante deste quadro.
Em
seguida, serão relatados alguns casos de alunos vistos como “difíceis” que
preparadores vocais encontram com freqüência e uma breve associação com os
fatores psicológicos apresentados.
1 Conceitos iniciais
Para Schoenberg[2]
(1965), a música funciona como um diálogo onde a clareza de ideias é de extrema
importância para que haja uma boa conversa.
Sem
organização, a música seria uma massa amorfa, tão inteligível quanto um ensaio
sem pontuação, ou tão desconexo quanto um diálogo que saltasse
despropositadamente de um argumento a outro.
Os
requisitos essenciais para a criação de uma forma compreensível são a lógica e
a coerência: a apresentação, o desenvolvimento e a interconexão das ideias
devem estar baseados nas relações internas, e as ideias devem ser diferenciadas
de acordo com sua importância e função (SCHOENBERG, 1965, p. 28).
Partindo
deste pressuposto, a música pode ser entendida como um jogo de regras composto
por momentos de tensão e relaxamento capaz de expressar emoções e ideias.
Portanto, a música é mais uma forma de expressão do ser humano.
Para
o aprendizado do canto, que é uma das formas de expressão musical, é importante
que o aluno amplie algumas sensibilidades para que seja realizado um trabalho
de autoconhecimento corporal, no qual as sensações são o referencial do que é
certo ou errado quando se põe em prática técnicas que estão sendo
desenvolvidas.
Segundo
Bicudo (2005), o mecanismo de produção da voz é composto pelas cordas vocais
(que se encontram na laringe), pulmões, sistema de ressonância (boca, nariz e
faringe) e órgãos fonoarticulatórios (lábios, dentes, língua, palato duro e
palato mole). Desta maneira, o corpo humano não disponibiliza de um órgão
exclusivo para a produção da voz.
Assim
como qualquer outro instrumento, para se cantar bem - tendo em vista que cantar bem envolve técnica - é necessário um pleno conhecimento do
instrumento para que o domínio do mesmo possa responder ao intento da música.
Pleno conhecimento do instrumento voz envolve conhecimento do corpo e de
fatores que podem alterar o bom funcionamento do mesmo. Vou dividir esses
fatores em três partes: físico, ambiente e psicológico[3].
1.1 Fator Físico
O ar
que vem dos pulmões no processo de expiração passa pelas cordas vocais fazendo
com que elas vibrem em maior ou menor intensidade (som agudo ou grave). Sendo
assim, podemos entender a voz como um processo mecânico que pode vir a
apresentar algum problema na sua formação estrutural. Caso isso ocorra, Bicudo
(2005) propõe em sua pesquisa que:
Quando um paciente
apresenta disfonia, o principal objetivo é modificar a produção vocal por meio
de novos ajustes musculares visando uma emissão com o mínimo de esforço e o
máximo de eficiência [...] Ao se trabalhar voz e motricidade oral, o objetivo
da terapia é, muitas vezes, compensar as alterações e otimizar a produção da
fala, além de ajudar o paciente a compreender que tipo de problema tem,
auxiliando-o a encontrar as soluções mais pertinentes para o seu caso. Se as
causas forem estruturais ou mesmo funcionais, o terapeuta atua no sentido de
melhorar o que está impedindo ou dificultando a articulação de fonemas (p.
117).
Portanto,
quando falamos de fator físico, falamos de problemas passíveis de
acompanhamento médico ou de uma terapia para a reeducação do controle dos
mecanismos da fala.
1.2 Fator ambiente
Nosso
corpo é matéria e como todo corpo material, reagimos às condições ambientais.
Umidade relativa do ar[4] e temperatura estão entre
os fatores que podem alterar o rendimento de um cantor.
[...] não apenas os motivos pessoais,
físicos e psíquicos incidem na percepção musical, como qualquer outro tipo de
percepção (quando estamos mal nos sentimos desligados, embora tenhamos as
maiores aptidões
e o melhor ouvido do mundo), mas também os motivos externos, como por exemplo a
temperatura, a pressão ou a umidade ambiente. ([...] existe um fator ambiental
que incide negativamente, fazendo baixar o rendimento geral.) (GAINZA, 1988, p.
46).
1.3 Fator psicológico
Este
fator apresenta toda uma complexidade do assunto que envolve cérebro, cognição,
afetividade e emoção em prol do canto.
Para
Gainza (1988): "Toda conduta envolve uma MUDANÇA" (p. 21). Partindo
desta afirmativa podemos dizer que toda dificuldade é acompanhada de algum
problema passível de solução, seja ela um fator físico, ambiental, psicológico
ou técnico. Howard (1984) também corrobora para essa questão quando afirma que
“[...] o homem não pode exteriorizar mais do que leva dentro de si” (p. 36).
Partindo
destas duas afirmativas, podemos refletir sobre o significado das palavras
“dom” e “capacidade”. De acordo com o dicionário Michaelis on line[5] (2015, s. p.)
“dom” significa “habilidade especial para”, e “capacidade”, a “possibilidade de fazer ou produzir
qualquer coisa”. Nota-se que em nenhuma das palavras diz ser algo exclusivo, e
sim, que dom pode ser entendido como uma facilidade em aprender; enquanto
capacidade, todos têm, desde que não haja uma impossibilidade física na questão
do cantar.
Tendo
como referência o real significado das palavras acima definidas, se buscam
respostas que ultrapassam os limites da técnica, quando todo o repertório a ser
ensinado não é o suficiente para que o aluno alcance um resultado satisfatório
dentro do cantar, na qual através da visão do ser humano como um todo pode ser
a chave para um resultado musical esperado.
Segundo
Bicudo (2005): "A voz, as emoções, a respiração e o corpo estão
intimamente ligados, portanto, mexer com a voz é mexer com o corpo todo
[...]" (p. 51).
Há
um contínuo movimento que envolve ajuste e equilíbrio do ser humano, capaz de
influenciar o resultado do processo de desenvolvimento musical deste. Este
movimento de ajuste e equilíbrio pode também ser compreendido através de uma
óptica piagetiana que fala sobre o conhecimento lógico-matemático (conservação
do número), onde o conhecimento é o desenvolvimento da ação do indivíduo sobre
o objeto[6]. Assim, o canto é
resultado da relação entre o sujeito e o objeto (música).
“Significado
e compreensão são construídos através de ações sobre objetos e de experiências
com as coisas a serem conhecidas” (WADSWORTH, 1973, p. XV).
Da
mesma maneira que o indivíduo age e reage sobre o objeto, este exerce
influência e pressão sobre o sujeito, nos levando a pensar sociologicamente que
o indivíduo além de ser resultado da sua interação com o meio, envia suas
percepções para este meio que o influencia a todo instante. Assim sendo, esta
interação é dinâmica e ativa. Portanto, devemos atentar para o fato de que um
cantor profissional sofre diferentes influências em relação ao amador, pois,
segundo Gainza (1988):
Músico profissional é, na minha opinião,
a pessoa que mantém uma relação madura, objetiva com a disciplina ou atividade
que cultiva; que a vê como algo claramente diferenciado dele mesmo, podendo –
como no caso da arte ou do artista -
chegar a introjetar nela partes ou aspectos de si mesmo – de maneira
voluntária ou não -, mas sem alterar ou perder de vista sua própria essência,
nem a do objeto. Em outras palavras, sem que se produza uma simbiose (p. 55).
Desta
forma, pode-se entender que há uma relação diferenciada entre amador-música e
profissional-música, podendo ou não ser caracterizada por produzir ou não uma
relação simbiótica. Ou seja, não há uma fronteira que separa o sujeito do
objeto, e, por não ter uma fronteira definida, a ação do sujeito sobre o objeto
fica prejudicada. De acordo com a hipótese de Gainza (1988), “[...] um sujeito
tem problemas com a música quando não consegue tomar distância por causa de uma
relação simbiótica com ela” (p. 65).
Em
outra situação, é que sendo a música um meio de expressão e toda expressão ser
projetiva, Gainza (1988) afirma que a música reflete aspectos da personalidade
e Bicudo (2005) vai mais além, quando diz que “[...] a voz reflete imagens
psicológicas em sons” (p. 47).
Se a
imagem psicológica pode ser concretizada através do som, podemos concluir que
uma pessoa que apresenta algum desequilíbrio psicológico ou emocional pode vir
a concretizar o seu som de forma desequilibrada, pelo fato do corpo estar
totalmente interligado. Por exemplo, uma pessoa que se encontra em um momento
de tensão, ou seja, os hormônios adrenalina e cortizol e o químico cerebral
dopamina se encontram em um nível acima do aceitável para se garantir um bom
desempenho em qualquer atividade, este indivíduo apresenta comprometidas as
capacidades de escutar, de aprender ou de atenção, assim, podendo possivelmente
estar associado a algum quadro de dificuldade de execução técnica vocal
(KHALSA, 1997). Isso acontece porque, segundo Magalhães e Camargo (2009):
O cérebro é a base material do nosso
mundo mental, de nossa alma - é nele que se formam os sentimentos, a visão de
mundo de cada um, os estados de espírito das pessoas e tudo o que elas percebem
de forma subjetiva. Aquilo que acontece na alma tem um correspondente biológico
no cérebro, e muitos dos processos químicos que ocorrem no cérebro têm um
parâmetro na alma. Esse órgão tão complexo, composto por cerca de 86 bilhões de
neurônios, está envolvido tanto nas nossas emoções, pensamentos e
comportamentos ditos 'normais', quanto nas perturbações deles. 'Qualquer
distúrbio emocional, mesmo que não seja tratado por meio de remédios, consiste
necessariamente num 'desequilíbrio bioquímico do cérebro'. Biologia e
psicologia, cérebro e psiquismo são apenas duas faces da mesma moeda', diz
Yovell (p. 20 - 21).
A partir
desta visão, a integração de instrumentos psicopedagógicos para um melhor
aproveitamento de um aluno no aprendizado do canto se torna fundamental,
compreender que a voz é o reflexo do seu “eu interior”, que responde a
situações, momentos e fatores psicológicos, emocionais e neurológicos se torna
tão importante quanto os conhecimentos técnicos a serem ensinados.
1.3.1 Emoção
Segundo
Goleman (1995), a palavra emoção vem do latim movere mais prefixo e -
que significa afastar-se. Portanto, quando falamos de emoções, estamos falando
de inclinações para um fazer súbito. Existem várias definições para emoção e
todas estão ligadas ao sentimento e ao agir, influenciado por um estado
psíquico ou biológico.
O
corpo manifesta uma reação para cada tipo de emoção que desempenha uma função
específica. De acordo com Goleman (1995, p. 20 - 21):
·
Na raiva, o sangue flui para as mãos, [...]
os batimentos cardíacos aceleram-se e uma onda de hormônios, a adrenalina,
entre outros, gera uma pulsação, energia suficientemente forte para uma atuação
vigorosa.
·
No medo, o sangue corre para os músculos do
esqueleto, [...] o rosto fica lívido, já que o sangue lhe é subtraído (daí
dizer-se que alguém ficou “gélido”). Ao mesmo tempo, o corpo imobiliza-se,
ainda que por um breve momento, talvez para permitir que a pessoa considere a
possibilidade de, em vez de agir, fugir e se esconder. Circuitos existentes nos
centros emocionais do cérebro disparam a torrente de hormônios que põe o corpo
em alerta geral, tornando-o inquieto e pronto para agir. A atenção se fixa na
ameaça imediata, para melhor calcular a resposta a ser dada.
·
A
sensação de felicidade causa uma das
principais alterações biológicas. A atividade do centro cerebral é
incrementada, o que inibe sentimentos negativos e favorece o aumento da energia
existente, silenciando aqueles que geram pensamentos de preocupação. Mas não
ocorre nenhuma mudança particular na fisiologia, a não ser uma tranqüilidade,
que faz com que o corpo se recupere rapidamente do estímulo causado por emoções
perturbadoras. Essa configuração dá ao corpo um total relaxamento, assim como
disposição e entusiasmo para a execução de qualquer tarefa que surja e para
seguir em direção a uma grande variedade de metas.
·
O Amor, os sentimentos de afeição e a
satisfação sexual implicam estimulação parassimpática, o que se constitui no
oposto fisiológico que mobiliza para ‘lutar-ou-fugir’ que ocorre quando o
sentimento é de medo ou ira. O padrão parassimpático, chamado de 'resposta de
relaxamento', é um conjunto de reações que percorre todo o corpo, provocando um
estado geral de calma e satisfação, facilitando a cooperatividade.
1.3.2 Estresse
De
acordo com Khalsa (1997): “O estresse é a sensação que pode resultar de um
fator estressante” (p. 280). Fator estressante é uma tensão causada por uma
ação ou um evento que atua sobre o sujeito como uma força exterior. O estresse
pode ser bom ou ruim, ele é bom quando os hormônios adrenalina e cortizol
juntos ao químico cerebral dopamina são acionados pelo cérebro e atingem um nível
ideal que nos faz entrar em uma região de motivação, entusiasmo e bom
desempenho para se realizar um trabalho com eficácia, e, ele é ruim quando esse
nível ideal é ultrapassado, fazendo com que a função neuroendócrina fique fora
de forma e com que haja uma desestabilidade nos sistemas nervoso e imunológico
(GOLEMAN, 2012).
Para
Goleman (2012), o cérebro atua auxiliando ou prejudicando o desempenho do
indivíduo em qualquer campo da habilidade através do "[...] impacto do
eixo HPA[7], o circuito que secreta
hormônios do estresse quando a amígdala é acionada" (p. 61).
Para
esta pesquisa, iremos abordar três estados de estresse representados na lei de
Yerkes-Dodson[8]:
ócio, esgotamento e fluxo.
Segundo
Goleman (2012), no ócio o indivíduo se apresenta entediado, desinteressado e
sem inspiração. Geralmente apresenta pouca ou nenhuma motivação para dar o seu
melhor na realização de uma determinada atividade, e isso acontece por não
haver uma quantidade suficiente de hormônios de estresse. No esgotamento, o sujeito
apresenta dificuldade na clareza de pensamentos e desequilíbrios no relógio
biológico, na função neuroendócrina, sistema imunológico e nervoso, devido ao
demasiado nível de hormônio de estresse que prejudica a capacidade de
desenvolver bem alguma atividade. E no fluxo, chamado de estado de harmonia
neural, o indivíduo além de sentir alegria ao executar a atividade em questão,
ele apresenta um elevado nível de concentração e rapidez na resposta aos
desafios variantes em que se encontra, devido às diferentes áreas do cérebro
estar trabalhando em conjunto. Neste estado, qualquer talento que o sujeito
tenha pode ser utilizado no nível máximo.
1.3.3
Ansiedade
Segundo
Magalhães e Camargo (2012), a ansiedade é uma das emoções mais úteis ao homem,
pois, se não houvesse a ansiedade ele não se prepararia para enfrentar os
momentos difíceis. Portanto, a “ansiedade é positiva quando experimentada em
níveis moderados e atrelada a ameaças reais” (p. 67). Sendo assim, podemos
entender a ansiedade (moderada) como uma das emoções responsáveis por tornar o
homem mais eficiente e precavido.
Porém,
quando a ansiedade é provada em níveis exagerados, há o comprometimento do bem
estar do indivíduo fazendo com ele que apresente um quadro de ansiedade
patológica, no qual, pode desenvolver dores de barriga, insônia e falta de
apetite, por exemplo.
Os
transtornos mentais do grupo da ansiedade são variados, iremos abordar apenas a
fobia social e a ansiedade generalizada por serem de relevante importância para
esta pesquisa por apresentarem sintomas que podem prejudicar o desenvolvimento
técnico vocal do indivíduo.
[...] na fobia social, a fonte de ansiedade é o julgamento alheio, por isso, a pessoa fica muito nervosa se tiver
que falar em público, comer acompanhada ou escrever diante de alguém. É algo
que vai muito além de uma simples timidez. A pessoa não fica apenas corada e
sem jeito se tem que passar por situações – fica tão nervosa que não dá conta
de realizar essas tarefas [...] Na ansiedade
generalizada, como o próprio nome sugere, tudo é fonte de preocupação desmedida. A pessoa simplesmente não
consegue relaxar, está cronicamente tensa, ruminando dúvidas e tomando
providências para evitar imprevistos e se sentir mais segura (MAGALHÃES E
CAMARGO, 2012, p.79).
Pode-se
concluir que a ansiedade pode ser positiva ou negativa para a realização de
qualquer atividade. Para Goleman (2012), a ansiedade pode prejudicar a
eficiência cognitiva do indivíduo.
Diante
dos aspectos psicológicos que podem interferir no desenvolvimento da técnica
vocal do indivíduo, podemos afirmar que,
após um trabalho realizado em conjunto entre o pedagogo musical e o
psicopedagogo, é possível diagnosticar, ou seja, identificar o problema que
causa a dificuldade do sujeito (técnico ou psicológico), e, a intervenção tende
a auxiliar no aprendizado, modificando este quadro que geralmente causa a visão
distorcida: a “falta de dom”.
Para Gainza (1988):
Por isso, a
única solução que vislumbramos por ora consiste em fazer com que o pedagogo e o
psicólogo intervenham conjuntamente, e de maneira ativa, para corrigir e
modificar esses tipos de situações confusas tão freqüentes dentro do meio
musical (p.62).
É de
extrema importância reforçar o fato de que nem todo problema ou dificuldade é
de caráter psiconeurológico, podendo ser também alguma limitação física ou
deficiência técnica.
2 RELATO DE CASO
Todos os casos relatados são reais e
estão representados por nomes fictícios por questões éticas.
2.1 Caso 1
Maria,
25 anos, estuda técnica vocal há aproximadamente um ano e seis meses por
indicação médica, após o diagnóstico de Miestenia Gravis, enfermidade
neuromuscular, caracterizada por um rápido estado de fadiga, após algum esforço
físico ou pela fraqueza muscular. No caso de Maria, a musculatura que apresenta
problemas é a da face, dificultando a articulação e o conforto na fala.
Porém,
a dificuldade encontrada no aprendizado do canto é potencializada pelo
pós-operatório em virtude da enfermidade. Após a cirurgia realizada, devido às
complicações da doença, Maria ficou abalada psicologicamente por seu rosto ter
sofrido alterações na formação, mas nada que comprometa a sua aparência física.
Todavia, após 25 anos, ver seu rosto com outra aparência lhe causava incômodo,
e a falta de sensibilidade em perceber isso dos que estavam ao seu redor, fez
com que ela se fechasse e não mais falasse a respeito sobre esse sentimento e,
por consequência, sobre outros assuntos emocionais que a incomodavam.
Após
um ano e seis meses de técnica vocal, o desenvolvimento de Maria nos exercícios
foi aceitável, tendo em vista que o contato com a música se deu por prescrição
médica, para ajudá-la no controle dos músculos faciais, melhorando sua
articulação. Porém, a dificuldade para cantar uma música não correspondia ao
desenvolvimento apresentado durante os exercícios, já que a música é uma
expressão do ser humano, onde ele apresenta ao mundo, o seu ser interior. Para
Gainza (1988): “Expressar-se é, pois, demonstrar tanto as deficiências como as
capacidades” (p.31). E, Maria, ao se retrair, sem falar sobre esses sentimentos
que lhe causavam desconforto e por pensar que o que ela sentia não era
importante, também apresentou essa dificuldade no momento do canto, pelos
mesmos motivos. De acordo com Bicudo (2005) a expressão vocal é afetada, quando
há o bloqueio de qualquer sentimento.
Neste
caso, podemos refletir sobre a música como uma das formas de expressão do ser
humano, onde a emoção interfere de forma ativa e constante, fazendo com que os
sons sejam o reflexo das imagens psicológicas através da voz. A psicoterapia
seria a intervenção mais adequada nesta situação.
2.2 Caso 2
Júlia,
28 anos, toca flauta doce com facilidade e faz aula de canto há aproximadamente
dois anos. Quando iniciou as aulas de canto, apresentava voz “infantilizada”,
problema superado tecnicamente com exercícios que a ajudaram no desenvolvimento
da articulação, contribuindo para aumentar sua consciência da formação das
vogais. Júlia também apresenta dificuldade na questão rítmica, a qual foi
amenizada com exercícios de percepção rítmica. Ela tem uma boa evolução nas
aulas, com bom controle da respiração, afinação aceitável e consegue ter uma
boa desenvoltura durante os vocalizes, porém, quando precisa cantar em público
ou nas aulas realizadas em grupo, Júlia não consegue ter o mesmo desempenho. Ao
ser questionada sobre a dificuldade apresentada, demonstrou insegurança diante
do seu conhecimento técnico vocal e receio de colocar em prática o que sabe
perante outras pessoas, por medo de errar ou ilações sobre que iriam pensar
dela.
Para
Magalhães e Camargo (2012):
[...] na fobia social, a fonte de ansiedade é o julgamento alheio, por isso, a pessoa fica muito nervosa se tiver
que falar em público, comer acompanhada ou escrever diante de alguém. É algo
que vai muito além de uma simples timidez. A pessoa não fica apenas corada e
sem jeito se tem que passar por situações – fica tão nervosa que não dá conta
de realizar essas tarefas. Foge delas como o diabo foge da cruz (p.79).
Júlia
apresenta sintomas de fobia social, na qual a válvula de escape é o julgamento
alheio, sendo este o motivo de ficar nervosa a ponto de não conseguir colocar
em prática o que sabe sobre técnica vocal. Não é uma simples timidez, é um
nervosismo que faz com que ela não consiga desenvolver o que sabe em público.
Neste caso, o acompanhamento psicológico para superar esta dificuldade é a
intervenção indicada.
2.3 Caso 3
Mateus, 37 anos, sete meses de aula
de técnica vocal. Desde o início sempre apresentou muita facilidade na execução
dos exercícios e boa afinação. Apesar de não conseguir manter o mesmo nível de
concentração em todas as aulas, sempre manteve uma evolução técnica, acima da
média. Porém, em algumas aulas, se mostrou muito agitado e com baixa
concentração, o que prejudicou a sua evolução musical. No início, geralmente
aparentava estar tenso, principalmente na região do pescoço, o que prejudicava
seu desempenho em notas agudas. Em várias conversas foi relatado sobre o dia
difícil que enfrentara antes de estar ali. Mateus trabalhava na área da saúde,
em uma instituição que estava passando por problemas administrativos e
financeiros.
De acordo com Khalsa (1997): “A mente é o “software”, o
produto místico ou misterioso de tudo o que somos. O cérebro é o “hardware”, um órgão físico que requer
nutrição, descanso, uso e cuidados médicos apropriados” (p.21).
Após um dia de trabalho desgastante é natural que o sujeito
se encontre, pela escala de Yerkes-Dodson, no estado de esgotamento, que é
quando os hormônios do estresse estão elevados.
Para Khalsa (1997), o cortizol retira do cérebro a glicose,
que é a única fonte de estímulo.
Ele também destrói os mensageiros
químicos do cérebro – seus neurotransmissores – que conduzem seus pensamentos
de uma célula para outra. Quando a função dos neurotransmissores é interrompida,
ou quando o suprimento de combustível para o cérebro cai, você encontra
dificuldade para se concentrar ou recordar alguma coisa (KHALSA, 1997, p.21).
Mateus, ao se encontrar no estado de esgotamento (software), faz com que seu corpo (hardware) não responda da maneira
esperada.
Este caso é muito comum, pois o causador do estresse pode
ser um dia ruim ou uma situação que esteja sendo vivenciada pelo sujeito na sua
casa, trabalho ou relacionamento.
A intervenção pode se dar através de exercícios de
relaxamento – geralmente realizados no início das aulas – ou, pode ser através
da meditação feita de forma regular ou, ainda, através de acompanhamento
psicológico adequado. A intenção é fazer com que o sujeito atinja o estado de
fluxo, que é o nível bom de estresse para um ótimo desempenho. Para Goleman
(2012): “Uma estratégia geral para intensificar a probabilidade de fluxo é
praticar regularmente métodos que realcem a concentração e o relaxem
fisiologicamente” (p.72). O relaxar fisiologicamente é de extrema importância
no canto, pois a “rigidez da nuca é também a rigidez do corpo e de suas expressões”
(BICUDO, 2005, p. 67).
Em todos os casos citados vemos a importância de um olhar
para o indivíduo como um todo. A voz não é apenas som, ela é um estado
emocional, psicológico e neurológico. Para Bicudo (2005):
A voz está no
meio do caminho entre a cabeça e o coração. Nela se encontra o que pensamos e o
que sentimos. As emoções deságuam na voz através de pelo menos dois mecanismos:
80% dos nervos que atuam sobre a musculatura da laringe passam pela região do
hipotálamo, parte do cérebro responsável pelas emoções, e o estado emocional
afeta a respiração, que fornece o ar para a produção da voz, afetando o nosso
corpo. A voz, as emoções, a respiração e o corpo estão intimamente ligados,
portanto, mexer com a voz é mexer com o corpo todo, é rever nossas atitudes
frente ao mundo (p.51).
Considerações finais
A
Psicopedagogia pode ser uma excelente ferramenta de aprendizagem da técnica
vocal, no qual, através da visão do indivíduo como um todo pode ser a resposta
para a dificuldade que ele encontra
para melhor desenvolver sua capacidade musical. As questões ligadas à emoção,
estresse e ansiedade são alguns dos aspectos que foram abordados neste artigo
que são de grande importância para o bem estar do aluno.
Quando um indivíduo consegue
manter uma boa relação com a música, é sinal de que ele está de bem consigo
mesmo, ou, ela (a relação) pode estar sendo uma maneira, talvez a única, que
ele tenha para mostrar o seu verdadeiro “Eu” para o mundo.
Por meio deste trabalho, pude
confrontar e compreender melhor uma afirmação de Howard (1984): “[...] é o ser
dotado no plano artístico que geralmente coloca os problemas mais
contraditórios para serem resolvidos” (p. 13). No início desta pesquisa, eu
esperava encontrar algumas informações que ajudassem a compreender e, ou,
padronizar as dificuldades musicais encontradas pelos estudantes da técnica
vocal, porém, no decorrer deste trabalho, me deparei com um leque de
informações onde a compreensão da voz é o resultado do ser humano em toda a sua
complexidade física, emocional, psíquica e técnica.
Há muito mais o que ser
pesquisado e observado, porém, este artigo pode proporcionar uma visão inicial
deste assunto complexo que é o desenvolvimento técnico vocal a partir da
Neurociência, Psicologia e Psicopedagogia.
Todos os indivíduos que se
apresentam como “sem dom” ou “sem talento” podem vir a cantar, através de um
trabalho em conjunto, do preparador vocal e da observação do psicopedagogo. Com amplo conhecimento de técnicas para
ensino do canto, é possível diagnosticar como deficiência técnica ou não, sendo
possível realizar um planejamento, traçando metas e definindo os objetivos para
o desenvolvimento vocal do aluno.
Referências
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KHALSA, Dharma Singh. Longevidade
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MAGALHÃES, Naiara; CAMARGO, José Alberto
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NUNES-SILVA, Marília et al. A música para indução de relaxamento na Terapia de
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ISBN 10: 8531400457. ISBN 13: 9788531400452.
WADSWORTH, Barry J. Piaget
para o professor da pré-escola e 1ºgrau. [tradução de Marilia Zanella
Sanvicente]. São Paulo: Pioneira, 1973.
[1] Licenciado em Música -
Graduado em Licenciatura em Música - Universidade Católica de Santos. Formado em
técnica vocal na EMT - Escola de Música e Tecnologia. E-mail:
contato@tatooliveira.com.br.
[2] Arnold Franz Walter Schoenberg (1874 –
1951) compositor austríaco, criador do dodecafonismo (que é uma forma de
composição musical), pintor e autor de tratados relacionados à teoria musical.
[3] Sempre ao citar fator psicológico
estarei me referindo aos fatores estresse, emocional e ansiedade.
[4] De acordo com a
NBR-17 (denominação de norma da ABNT), que é uma norma regulamentadora
voltada para o trabalho, os parâmetros estabelecidos de temperatura são entre
20ºC – 23ºC e umidade relativa do ar não inferior a 40% visam uma adaptação das
condições do trabalho às características psicofisiológicas do trabalhador.
[5] Disponível em http://michaelis.uol.com.br.
Acesso em 29 Mar. 2015.
[6] Entende-se como objeto, todo material
concreto que pode ser manipulado. Segundo Wadsmorth (1973) a ação do sujeito
sobre o objeto constrói o conhecimento lógico-matemático que é um dos três
tipos de conhecimento piagetiano.
[7] Eixo hipotálamo-pituitária-adrenal.
[8] A relação entre estresse e desempenho,
captada na lei de Yerkes-Dodson, mostra que o tédio e a ociosidade disparam
muito pouco dos hormônios de estresse secretados pelo eixo HPA – e o desempenho
fica para trás. Conforme ficamos mais motivados e empenhados, o “bom estresse”
leva-nos à zona ótima, na qual temos o melhor nível de desempenho. Se os
desafios ficarem grandes demais e ficarmos esgotados, entramos na zona de
exaustão, onde os níveis de hormônios de estresse ficam altos demais e dificultam
o desempenho (GOLEMAN, 2012, p. 62).
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