20 de agosto de 2012

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DEVOÇÃO DE J. S. BACH E SUA MÚSICA LITÚRGICA

Manoel Roberto B. Lopes (Beto Lopes)

O artigo a seguir apresenta comentários sobre o encaminhamento da carreira musical de Johann Sebastian Bach, que, como se sabe, foi norteado pela música litúrgica especialmente a partir de 1723 em Leipzig. O foco a ser mantido neste artigo é a sinceridade de Bach em seu sentimento de louvor a Deus, o qual é a grande fonte de inspiração de suas obras religiosas. Serão feitas considerações sobre suas decisões, especialmente as relacionadas à ofertas de trabalho e atividades no serviço da Igreja.
Interpretações sobre a polêmica declaração de Friedrich Blume, segundo a qual não houve uma sincera devoção na produção religiosa de Bach e contestações à esta declaração serão ilustradas com passagens biográficas e aspectos do pensamento de Bach, a fim de enriquecer e estimular as reflexões do leitor.
O artigo é na realidade uma reflexão sobre o texto “Johann Sebastian Bach´s Relationship to the Worship of His Time”, de Günther Stiller inserido em seu livro “Johann Sebastian Bach and liturgical life in Leipzig’’.

           
Bach nasceu no Luteranismo e desde cedo recebeu sólida educação neste sentido, a qual teve prosseguimento durante toda a sua adolescência e juventude, cobrindo não só o aspecto teológico mas também litúrgico. Ele não foi, de forma alguma, uma pessoa isenta de grandes provações: logo aos nove anos ficou órfão de pai e mãe. Entretanto, com força incomum, aquela criança (se é que Bach teve tempo de ser criança...) soube suportar aquela dolorosa situação. Assim, já se pode constatar que os ensinamentos cristãos e a formação religiosa recebida desde cedo, realmente  foram bem assimilados e valorizados por Bach.
Sua reação logo após a perda de seus pais, foi por iniciativa própria, seguir para Luneburg: lá mergulhou profundamente em seus  estudos de música, idiomas e prosseguiu com sua educação no Luteranismo Ortodoxo teológico e litúrgico.
Caso não tivesse fé, a tendência de Bach seria reagir rebelando-se contra Deus no caso de uma perda como aquela.
Portanto, desde cedo a personalidade e as convicções de Bach apresentam coerência, bom senso e lógica. Apesar de Bach ter sido um homem diplomaticamente pouco hábil, suas  decisões eram sempre bem ponderadas, tomadas sem precipitações e fundamentadas em seu conhecimento.
Stiller (1984) contesta a hipótese de Friedrich Blume, segundo a qual Bach não teria tido uma ligação sincera em termos de fé com a religião Luterana, e  que sua obra musical litúrgica – especialmente após 1723 em Leipzig – não teria sido inspirada em verdadeiros sentimentos religiosos.
A polêmica foi eliminada por muitas evidências que provaram o contrário, tanto quantitativa como qualitativamente. Stiller (1984) contradiz elegantemente as idéias de Blume a partir destas evidências,  fazendo uma ótima defesa à imagem de Bach. O próprio Bach, em vida teve que enfrentar ataques que muito o desapontaram, como aquele de que ‘’sua música  estava superada’’!
Stiller faz uma defesa fundamentada em uma série de fatos detalhadamente documentados, que demonstram com segurança que Bach, com todo o seu conhecimento, talento e  qualificação, sempre teve todos os recursos para tomar decisões acertadas sobre seu encaminhamento musical, envolvendo estilos de composição e ofertas de trabalho.
Como poderia Bach ter escolhido um encaminhamento profissional musical que não estivesse de acordo com suas convicções se ele conheceu todas as alternativas? Conheceu a música do Sul da Alemanha através de seu irmão e professor Johann Christoph, que era discípulo de Pachelbel. Interessou-se pela música italiana de Frescobaldi, Marcello e Vivaldi. Conheceu a música francesa, de Lully – e segundo Blume, teria mesmo tocado temporariamente na orquestra de Celle nos tempos de Luneburg, cuja corte secular (uma mini-Versailles) mostrou-lhe um novo mundo e uma nova visão musical.
O Mestre genial, portanto, estava de fato muito bem informado musicalmente, acompanhando as novas tendências, que acabaram por seduzir Tellemann e muitos outros.
Ainda nos tempos de Luneburg, Bach foi a Hamburg para conhecer não só o organista octagenário Reinken, como também a prestigiada “Veneza Alemã”, com Kaiser à frente da Ópera Alemã, seguindo padrões franceses e italianos. Também aqui, Bach encontraria emprego sem maiores dificuldades, primeiro por seu valor, e segundo porque o referido prestígio que estava recebendo a ópera alemã, alimentava boas oportunidades de emprego naquele campo. Entretanto, não era este seu grande plano.
 Se Bach preferiu manter-se sempre no mesmo estilo (especialmente de 1723 em diante), não foi por falta de informação musical: além de sua sólida formação, Bach não ficou ‘’recluso’’ num mundo isento de influências. Ao contrário, sempre fêz questão de conhecê-las e portanto, sua escolha sem dúvida representa sua grande e sincera preferência.
Após tantas possibilidades de emprego, Bach escolheu trabalhar como organista em Arnstadt, onde efetivamente iniciou sua carreira.
Se a fé e a devoção de Bach não fossem suficientemente sinceras e fortes, como poderia Bach ter superado as  adversidades que ocorreram na igreja de S. Bonifácio após sua visita a Buxtehude, em Lubeck, sem desistir do ofício religioso?
Ou, em outras palavras, por que insistir nesta carreira de música litúrgica, se esta acabara de lhe causar um injusto aborrecimento? Injusto porque Bach foi conhecer Buxtehude exatamente para colher idéias e expandir seus conhecimentos, ou seja, totalmente interessado em sua profissão de músico litúrgico, na qual estava, desta forma, exatamente investindo cada vez mais. Injusto também porque Bach,  apesar de prolongar sua licença, deixou um bom substituto em seu lugar. Injustiçado em Arnstadt, Bach poderia muito bem desejar experimentar algo diferente para esquecer aquele desconforto sofrido na Igreja.
Porém, Bach decide prosseguir a carreira de músico litúrgico, desta vêz em Muhlhausen, descartando oportunidades de trabalho profano que lhe estavam sendo oferecidas ainda em Arnstadt, como a do Conde Anthon Gunther, que amava música e teatro e investia fortunas neste campo. A recusa à esta oferta significa muita determinação e vocação por parte de Bach.
Mais uma evidência da devoção de Bach e sua sinceridade com a música religiosa está exatamente no tenso encontro entre Bach e os pietistas neste seu novo cargo em Mulhausen: a melhor maneira que Bach encontrou para enfrentar os pietistas, com suas “oposições” e “aborrecimentos”, foi dar o melhor de si na Igreja Luterana, trabalhando em seu grande projeto, que era o da ‘’Criação de Música Religiosa  Para a Glória de Deus”, segundo suas próprias palavras, não mais em Muhlhausen, mas em Weimar.
Porém, uma questão vem à tona: tendo em vista que o pietismo estava se desenvolvendo com força crescente e exercendo grande oposição ao Luteranismo Ortodoxo – incluindo oposição à música religiosa -  não seria mais fácil para Bach aceitar uma daquelas bem remuneradas ofertas profanas, já que a música de corte secular estava ‘’em alta’’? Oportunidades não iriam faltar para Bach, que já gozava de grande fama e era sempre remunerado com os maiores salários.
Ou ainda: por que deixar o posto em Mulhausen? O conselho prestigiava Bach e lamentava sua saída, tentando convencê-lo a permanecer no cargo. O relacionamento entre Bach e os membros do Conselho era bom; suas cantatas começavam a ser publicadas (fato único durante sua vida). O salário era bom; as exigências de Bach eram atendidas. Portanto, por que deixar tudo para trás e ir para Weimar? 
A resposta de Bach: - “Para continuar – sem obstáculos e sem o aborrecimento  de terceiros – a criação de uma música religiosa para a Glória de Deus.” Não fosse a presença de uma intensa fé e vocação religiosa, a decisão de Bach teria sido diferente. Embora sendo uma corte, Weimar representava uma garantia para a continuidade deste intento.
As ações do duque Wilhelm Enrst, eram compatíveis com seu lema (”Alles mit Gott”): reconstrução da capela da corte, criação de um orfanato e de um seminário, sempre procurando manter o bem-estar em Weimar, e seguindo seu pensamento luterano ortodoxo. Porém, o lamentável incidente da sucessão do Cappelmeister Drese desapontou profundamente J.S.Bach, o que o levou a decidir por mudar de Weimar.
Mais uma vez: por que não abandonar a Igreja e seguir um novo caminho? Ainda mais que foi justamente dentro da atmosfera religiosa que sua amada esposa Barbara faleceu.
Estas atrações pela mudança para o novo, entretanto não tiveram lugar na firme mentalidade de Bach, e mais uma evidência disto, foi que o próximo posto a ser por ele assumido, (Kothen) também permitiria o prosseguimento de suas composições para a Glória de Deus, embora de forma mais modesta. O príncipe , embora calvinista, atendeu a exigência de Bach de continuar suas atividades conforme seu grande plano.
Stiller coloca com detalhes que  em Kothen, Bach não só  exercia  sua vida  musical e luterana ortodoxa sem restrições, mas também encontrava  tempo para  conhecer outras possíveis alternativas de trabalho, como em  Hamburg e em Leipzig, então as duas mais fortes cidades luteranas da Alemanha. A posição conquistada por Bach em Leipzig, representava uma das mais concorridas e importantes posições que um grande músico poderia almejar na Alemanha.
Sobre qual teria sido a fase mais feliz na vida de Bach, aparentemente os anos em Kothen teriam sido os mais felizes. Porém, ao pesquisarmos os primeiros anos de Bach em Leipzig, na plena maturidade de seus 38 anos, percebemos uma fantástica força com a qual ele entregou-se a este trabalho.
Os rendimentos salariais de Bach em Leipzig, eram menores do que aqueles em seu posto anterior, porém eram muito mais altos que os de seu antecessor na Thomasschule. Aparentemente, na interpretação de Blume, isto teria representado um “declínio” na carreira de Bach.
Outras colocações de Blume que o auxiliaram em seus mecanismos de polemizar, apontam frases de desabafo deixadas por Bach, nas quais se nota visível reação contra injustiças e outros desgostos, como qualquer humano faria. Na realidade, entretanto, tais frases nada tem a ver com a sinceridade religiosa de Bach na criação de ‘’uma música para a glória de Deus”. Na carta de Bach a seu amigo Erdmann, escrita sob a clara influência de injustas oposições do Conselho de Leipzig ao grande plano decidido já em sua juventude, se pode perceber que a frase ‘’teria passado o resto da vida em Kothen” na realidade tem origem apenas na grande frustração de Bach com a total omissão por parte do Conselho com respeito ao Memorial de Bach de 1730.
Por ser um desabafo, não se pode tomar estas palavras como definitivas sem levar em conta uma pesquisa mais aprofundada.
A polêmica foi eliminada, mas aos interessados fica aqui a sugestão de um estudo sobre o que teria levado Blume a criá-la. O que se nota infelizmente, é que alguns pesquisadores e escritores talentosos pecam ao dar mais importância ao fato de chamar a atenção para si do que ao conteúdo das pesquisas.
Para finalizar, uma questão crucial: por que Bach teria preferido continuar em Leipzig até seus últimos dias, compondo suas famosas cantatas semanalmente e escrevendo sua Missa em si menor BWV 232, porém enfrentando injusta oposição, enquanto poderia certamente mudar para onde bem desejasse? Só pode ter sido pela manutenção da fé e do idealismo de Bach, sempre buscando “uma música para a glória de Deus”.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

STILLER, Günther. J.S.Bach and Liturgical Life in Leipzig.St. Louis: Concórdia, 1984.

BLUME, Friedrich. Protestant Church Music, A History. New York: W.W. Norton, 1974.


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