Gilberto Mendes
22 de abril de 2012, um concerto marcante em minha carreira como pianista e pesquisador da obra para piano de Gilberto Mendes.
Como escreveu um grande amigo, Álvaro Guimarães, Gilberto veio ao mundo no meio de futuristas, dadaístas, anarquistas, antropofágicos comunistas (graças a Deus) e, ainda por cima, no ano da efervescente Santa Semana de Arte Moderna.
Esta ebulição de novas ideias, ao lado de um Brasil que buscava sua identidade, cavada em Macunaímas, uma face deste neo beau sauvage. É o momento de Villa criando, Mário pensando e Oswald bradando “tupi or not tupi”. Sonha a arte nacional com novos caminhos que levarão a rupturas e novas convergências a partir da segunda metade do século XX.
Gilberto Mendes mergulhado nos sons do rádio, cinema, da vitrola de sua casa ou das salas de concerto, cria um universo sonoro pessoal que lhe permite liberdades que irão enfatizar a individualidade de seu processo composicional.
Sua obra para piano não oculta sua clara paixão por Chopin, Beethoven, Schumann, Stravinski ou Debussy. Em outro momento, deixa vazar um certo nacionalismo, atendo-se ao uso de constantes rítmicas e esquemas modais folclóricos. Surgem então os Prelúdios, o Álbum para Crianças, as Sonatas Mozartiana e a Prokofieffiènne, que revelam o curioso caso de composições que precedem seu próprio compositor. Estas partituras, calcadas no neoclassicismo e ecoando o barroco. O maestro Aylton Escobar certa vez afirmou que todas essas peças são, na verdade, um estudo de composição, como se Gilberto Mendes passasse sobre um papel de seda os originais que ele usou para reverenciar esse seu modelo. E o fez também de modo criativo, pois ao seguir os passos de um grande mestre, ele se sente livre para homenagear, para lembrar e fazer emergir toda sua poética pessoal.
E aí segue Gilberto navegando nas águas da vanguarda e silenciando o piano por 20 anos e com Vento Noroeste, em 1982, retoma ao instrumento transformando sua linguagem num grande discurso de integração entre antigas e novas conquistas estéticas. Uma bússola que orienta novos horizontes para a música brasileira. Surgem, entre outras, os 03 Contos de Cortázar, Eisler e Webern Caminham nos mares do Sul, Viva Villa, Il neige... de nouveau, Fur Annette, sua Urubuqueçaba, para flauta e piano que encontrou numa santista de coração uma interpretação plena de brasilidade e delicada sonoridade; seu Estudo de Síntese que emerge como um farol orientando o caminho do ouvinte e do intérprete sobre todos seus acordes referenciais. A matriz sonora de sua instigante criatividade.
Este concerto, que teve a produção da Alexandra Linda, proporcionou-me um momento de grande alegria ao ver o quanto o mestre é querido e sua obra tão cara a todos que a conhecem, e mesmo aos que a descobriram naquela noite chuvosa de um outono brigando com um insistente e penoso verão santista. Encerro com as palavras de Cervantes quando toma o sonhador Dom Quixote ao dizer “quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha junto, é o começo da realidade”, mas que caberiam a Gilberto ao referir-se ao sonho do Música Nova “...partíamos do que víamos em Boulez, John Cage, mas não imitávamos. Fizemos uma obra de grande originalidade...”
”De meu lugar na plateia, vejo Gilberto de costas primeira fila, ao lado da esposa Eliane. No palco, Antonio Eduardo faz uma viagem pelo repertório do maestro...”. (Madô Martins)
Antonio Eduardo
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